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Fotógrafas Brasileiras - Imagem Substantiva

Entrevista com a escritora Yara Schreiber Dines



Capa do Livro. Foto de Patrícia Gouvêa da Série Fenda, 2003/2019

“Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher...”

Este trecho do poema de Adélia Prado retrata bem o propósito da escritora e antropóloga Yara Schreiber Dines no seu livro Fotógrafas Brasileiras - Imagem Substantiva. Lançado no início de 2022 pela editora Grifo, em formato de fotolivro, a publicação apresenta o perfil 60 mulheres com atuação nos séculos 20 e 21, mostrando que, também na fotografia, as mulheres tiveram e têm que fazer o dobro para mostrarem sua competência e conquistarem um lugar de destaque nesta profissão.


Diferentes olhares e interesses dentro da linguagem fotográfica, um recorte com foco em memória, gênero, antropologia visual e história da fotografia no país.


A entrevista com Yara Dines inaugura uma nova fase aqui no blog da Art Wall Quadros, onde queremos trazer a discussão de temas mais relacionados com a nossa paixão: a fotografia.

Yara conversou com a nossa jornalista e fotógrafa Malu Machado. Bora se apaixonar pelo universo fotográfico? Como vocês, a autora:


Foto: Yara Schreiber Dines - Acervo Pessoal


ArtWall: Você é pós doutora em fotografia, antropóloga e historiadora. O seu currículo por si só justifica a intenção do seu livro. Mas o que te despertou, qual a primeira centelha que te fez querer estudar a fotografia realizada por mulheres e registrá-la em um livro?


Yara Dines: Fiz o meu pós-doutorado na Escola de Comunicação e Artes, da USP, sobre as fotógrafas imigrantes Hildegard Rosenthal e Alice Brill, abordando as suas formações, trajetórias e produção moderna, principalmente em São Paulo.


A partir da pesquisa realizada, elaborei o livro “Fotógrafas de além-marcosmopolitismo e modernidade nos olhares sobre São Paulo” (Ed. Intermeios, 2020). Constatei a riqueza do recorte de imagem e gênero, e, na época, haviam raros estudos a respeito, no Brasil, deste modo passei a elaborar cursos livres com este recorte, mas também almejava um produto mais sólido e perene como um livro sobre as fotógrafas brasileiras.


Foto: Gioconda Rizzo [Rizzo Studio], Sem Data



ArtWall: Sabemos que as primeiras referências femininas na pintura foram as flores. Como as mulheres não podiam sair pelo mundo como os homens, elas pintavam coisas do seu universo. Na fotografia aconteceu o mesmo processo? Quais os temas mais recorrentes entre as fotógrafas que você pesquisou?


Yara Dines: No final do século XIX e início do XX, as mulheres fotógrafas eram assistentes, fotocopiadoras, laboratoristas, retocadoras, sendo que, nas décadas de 1920 e 1930, os nomes dos ateliês eram sempre dos maridos, mesmo quando algum deles falecia.


Estas mulheres estavam sempre na sombra de seus esposos. Elas produziam retratos de bebês e mulheres, fotos de casamento e de formatura e, somente uma delas, imigrante, fez fachadas de moradias modernas.


Só para ter uma ideia, Gioconda Rizzo, foi uma precursora da fotografia em São Paulo, possuindo um ateliê, bem jovem. O seu irmão quando constatou que ela também estava fotografando cortesãs, contou ao pai, sendo que estes impuseram à ela que fechasse o ateliê, pois poderia manchar a sua reputação. Gioconda, além de produzir os tipos de fotografias acima, também fez fotos em porcelana, um processo muito delicado.


Fotos: Hildegard Rosenthal com máquina de escrever, ao telefone e na cozinha,

1940 Acervo Instituto Moreira Salles



ArtWall: O seu livro faz um recorte de 60 mulheres fotógrafas, iniciando com o trabalho da retratista e laboratorista Gioconda Rizzo, (1914-1916), primeira mulher a abrir um estúdio de fotografia em São Paulo, o Photo Femina, até os registros de coletivos de fotografia em 2016, como o Movimento Fotógrafas Brasileiras e Mamana Coletiva. Como foi o processo de curadoria dos trabalhos para compor o seu livro?


Yara Dines: A curadoria da publicação foi complexa, delicada e minuciosa. Há um recorte temporal que perpassa o livro, cobrindo mais de um século de atuação destas mulheres artistas, mas a ideia desta cronologia é que não fosse estanque e que as obras efetuassem um diálogo e se complementassem.


É importante afirmar que há raros estudos ainda sobre a temática do livro, seja no país ou no exterior, e com este enfoque de fotolivro. Além disso, foi relevante ter feito uma vasta pesquisa no intuito de não esquecer nomes representativos do gênero feminino da fotografia no Brasil. Mesmo assim, em virtude dos limites do patrocínio não consegui inserir todos os expoentes deste universo, mas a maioria.


Foto: ALICE KANJI - Garoto peralta, 1970 Acervo Milton e Ricardo Kanji/Galeria Utópica



ArtWall: No seu livro fica bem destacada a presença de fotógrafas imigrantes que fizeram carreiras brilhantes em nosso país. Como você descreve a trajetória dessas mulheres e como elas influenciaram na história da fotografia brasileira?


Yara Dines: A questão da vinda das fotógrafas imigrantes da Europa para o Brasil e a América Latina é um tema em si. No início do século XX, os fotógrafos/as já tinham a possibilidade de carregar uma câmera leve, além do fato de que não era necessário dominar a língua do país para trabalhar. Alice Brill, Hildegard Rosenthal, Gertrudes Altschul, Claudia Andujar, Lily Sverner e Stefania Bril emigraram em decorrência do nazismo e o anti-semitismo em relação aos judeus.

Há mais nomes de fotógrafas imigrantes que chegaram no estado de São Paulo, mas que são pouquíssimo conhecidas.


Alice Brill e Hildegard Rosenthal, originárias da Alemanha, fotógrafas precursoras modernas, em São Paulo, exploraram o espaço urbano, fotografaram a rua e os habitantes da cidade. Gertrudes Altschul, também provinda da Alemanha, vem sendo descoberta mais recentemente e deixou um acervo fotográfico significativo também com influência moderna. Claudia Andujar, originária da Hungria, é um ícone da fotografia brasileira, sendo pujante a sua atuação e celeiro imagético, principalmente junto aos yanomami, o registro de população migrante do nordeste, gays e o modo de vida no interior do Brasil, na década de 60, que o Instituto Moreira Salles expôs em mostras realizadas desta fotógrafa, há pouco tempo.

Stephania Bril foi fotógrafa, autora, curadora e gestora cultural. Seu olhar fotográfico é muito particular com pitadas de humor, no qual mostra que ultrapassou as experiências árduas da IIa Guerra Mundial. Ela teve uma atuação marcante na história da fotografia brasileira, sendo que introduziu o Iº e IIº Festival de Fotografia de Campos de Jordão, a exemplo daqueles que aconteciam em Arles, na França, aonde foram realizadas as primeiras conversas sobre a atuação da mulher na fotografia, no final dos anos 1970.


Estas mulheres artistas, conseguiram vicejar a fotografia brasileira, desde a década de 1930, e são referências de enfoques singulares, liberdade em relação aos seus modos de vida na época e atuação profissional. Além de circularem intensamente pelo país, no seu interior, como é o caso de Maureen Bisilliat, Claudia Andujar e Alice Brill, principalmente, num período que haviam muitas dificuldades para estes deslocamentos.


Verificamos que estas fotógrafas expuseram faces pouco conhecidas de seus habitantes como dos sertanejos, indígenas, ribeirinhos e a diversidade dos moradores urbanos, através da fotografia documental e retratos, criação de autorretratos, como Hildegard Rosenthal, em sua dimensão ficcional, além de experimentação com técnicas inovadoras com infravermelho, por Claudia Andujar.


Foto: Maureen Bisilliat - Menino-anjo , São José do Rio Pardo, SP, 1963 Acervo Instituto Moreira Salles

"Estas mulheres artistas, conseguiram vicejar a fotografia brasileira, desde a década de 1930, e são referências de enfoques singulares, liberdade em relação aos seus modos de vida na época e atuação profissional. Além de circularem intensamente pelo país, no seu interior..."

Foto: CRIS BIERRENBACH - Retrato íntimo: tesoura, 2003 Coleção Bibliothèque Nationale de France



ArtWall: Ainda sobre a influência dessas fotógrafas migrantes, você destaca um ensaio em preto e branco da fotógrafa húngara Claudia Andujar, documentando um parto em casa, em Bento Gonçalves (RS). O ensaio foi publicado na revista Realidade, mas a edição foi censurada e recolhida das bancas. Falar sobre o universo feminino ainda é tabu nos dias de hoje?


Yara Dines: Considerei relevante evocar este ensaio da Claudia Andujar, pois é pouquíssimo conhecido na atualidade. Creio que há ainda temas tabus no universo das mulheres como a violência, mulheres presas, mulheres trans e mesmo o sangue menstrual, assuntos que ainda são pouco comentados.


Foto: Claudia Jaguaribe - Menina na laje, da série “Entre morros”, Rio de Janeiro,

2010 Acervo Claudia Jaguaribe



ArtWall: Da fotografia documental para o fotojornalismo. O que você destacaria da atuação das mulheres neste campo de trabalho? Fotografar violência, homicídios e manifestações sociais “é coisa de menina”?


Yara Dines: Detalhe, é do fotojornalismo para a fotografia documental. Desde os anos 60 e 70, fotógrafas como Claudia Andujar, Nair Benedicto, Rosa Gauditano, Cynthia Britto (RJ), Jacqueline Joner (RGS), Eneida Serrano (RGS), dentre outras, fizeram fotojornalismo com pungência e assombro, pois registraram temas não muito fotografados pelos homens, como minorias, incluindo indígenas, mulheres, crianças, por exemplo.


Além disso, Nair Benedicto, Rosa Gauditano, Cynthia Britto, Paula Simas, e outras, desde a década de 1970, cobriram manifestações políticas importantes como o movimento negro, movimento de mulheres e mesmo as manifestações pelas Diretas Já.


Sim, fotografar violência, homicídios, brigas é “coisa de menina”, ou melhor dizendo de certas mulheres como Marlene Bergamo, Wania Corredo, Paula Simas, Anna Khan, dentre outras, que expõem olhares singulares e densos para estas formas de opressão e questões sociais do Brasil.


Foto: Marcela Bonfim - Manjar do Guaporé: preparo do tracajá, do processo

fotográfico “(Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências

negras na floresta” São Francisco do Vale do Guaporé, RO, 2016


"Sim, fotografar violência, homicídios, brigas é “coisa de menina”, ou melhor dizendo de certas mulheres como Marlene Bergamo, Wania Corredo, Ana Carolina Fernandes, Paula Simas, Anna Khan, dentre outras, que expõem olhares singulares e densos para estas formas de opressão e questões sociais do Brasil."

Foto: Wania Corredo - Bope no Cristo Treinamento do Bope para os Jogos Panamericanos, 2007


ArtWall: O seu livro também traz trabalhos de fotógrafas fora do eixo Rio-São Paulo. O regionalismo foi uma preocupação na sua curadoria?


Yara Dines: Sim, o regionalismo é fundamental nesta curadoria, pois há trabalhos instigantes das mulheres fotógrafas no Pará, Roraima, Bahia, Alagoas, Brasília, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, dentre outros estados. Iluminar os trabalhos destas fotógrafas, no intuito de serem mais visibilizados, é um aspecto basilar da nossa publicação.

Iluminar os trabalhos destas fotógrafas, no intuito de serem mais visibilizados, é um aspecto basilar da nossa publicação.

Foto: Márcia Xavier Horizonte Inebriante (Gim), Sem Data



ArtWall: Contemporaneidade: O que você destacaria das temáticas que estão sendo foco de atenção das fotógrafas na atualidade?


Yara Dines: Além das fotojornalistas e fotodocumentaristas que abordam violência, violência contra a mulher, menor, minorias, questões sociais, é importantíssimo destacar o trabalho sensível e arguto das fotógrafas contemporâneas, que problematizam a ontologia da fotografia, memória, tempo, casamento/relações afetivas, identidade, etnicidade, cidade, meio ambiente, grupos sociais das periferias, violência contra a mulher, dentre outros temas candentes com uma mirada híbrida, contaminada e expandida.


ArtWall: Sempre nas sombras. Escritoras, pintoras, musicistas, fotógrafas. Muitas mulheres não puderam assinar suas obras. O seu livro tem este propósito de dar visibilidade a essas artistas. Como você espera que seja essa repercussão?


Yara Dines: Sim, a intenção do livro é dar visibilidade, valorização e empoderamento às fotógrafas brasileiras/mulheres artistas. O livro é bilíngue, espero que a obra tenha uma grande repercussão no circuito cultural do país. Além dos lançamentos em São Paulo, o livro será lançado no Rio de Janeiro, e estamos trabalhando para que seja lançado em Paraty, no Festival Internacional de Fotografia e no FotoRio, por ora.


Foto: Ana Araújo - Ritual Pankararu com os praiás, fazendo uso das loiças, do

fotolivro Pankararu: identidade, memória e resistência, 2021



ArtWall: O que os leitores podem esperar ao ler o Fotógrafas Brasileiras – Imagem Substantiva?


Yara Dines: Os leitores irão realizar um mergulho no universo de luz e imagens de mulheres fotógrafas, com mais de um século de duração. Irão encontrar dois textos autorais – um meu, com o enfoque da antropologia visual e da história da arte e outro, das autoras Angela Magalhães e Nadja Peregrino, com o viés da história da fotografia, além de encontrarem os retratos e os excertos de depoimentos. Os leitores irão efetuar um sobrevoo sobre um celeiro imagético calcado na diversidade e pluralidade de olhares na linguagem fotográfica.


Foto: Elaine Eiger - Sem título, São Paulo, SP, 2009



ArtWall: Existe material para outro livro? Esta seria uma nova jornada para você ou ele abre portas para novas pesquisas?


Yara Dines: A elaboração do livro me permitiu conhecer muitas mulheres artistas, suas dificuldades, o valor de suas criações e vozes. Esta vivência foi ótima e também o contato próximo com estas mulheres, o que inspira a realização de novos trabalhos a respeito da chave de imagem e gênero, pois há muito a ser falado e escrito ainda no Brasil e no exterior.


Foto: Jacqueline Hoofendy, Outras arrebentações: autorretrato Movimento Fotógrafas Brasileiras, 2016



ArtWall: O que você aprendeu fazendo este livro?


Yara Dines: Aprendi que é necessário muita resiliência para ir atrás dos sonhos neste país e que somente indo em frente e não desistindo nunca, que conseguimos realizar um projeto perene como do livro das fotógrafas brasileiras, seus olhares e trajetórias, que tem um papel social a desempenhar no sentido de visibilizar e ampliar o espaço de atuação e reconhecimento dessas mulheres artistas.


Foto: Julio César Guimarães, Movimento Fotógrafas Brasileiras, RJ, 2016



ArtWall: Se você pudesse falar com cada fotógrafa que você registrou, qual mensagem você gostaria de enviar para elas?


Yara Dines: Eu falei com a maior parte das fotógrafas que estão no livro, pois realizei depoimentos orais com elas. A realização dos depoimentos orais foi fecunda, pois cada uma destas fotógrafas possuí uma história e trajetória singular, sendo que construímos um exercício de rememoração conjunto, no qual elas rememoraram percalços de seus percursos, sua formação e ação criativa, conseguindo desta forma vislumbrar e entender melhor seu caminho criativo e gênese como mulheres artistas.


ArtWall: Gostaria de deixar alguma mensagem para os nossos leitores?


Yara Dines: Nunca desistam de seus sonhos, sejamos feministas, valorizem as mulheres artistas e a luta continua!

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