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Artes que se conectam

Por Malu Machado, entrevista com Gabriela Machado


Olá Amantes das artes! Malu Machado por aqui abrindo espaço no blog da Art Wall para um bate papo gostoso sobre outros tipos de fazeres artísticos. A conversa deste mês é com a Gabriela Machado, mulher multifacetada que respira arte em vários formatos e que vocês vão conhecer um pouco mais nesta deliciosa e provocante entrevista. E antes que me perguntem, não somos parentes! Bora conferir?



Art Wall: É um prazer te receber aqui no Blog da Art Wall, Gabriela. Atriz, diretora de teatro, professora de artes, bordadeira. Posso te apresentar assim?


Gabriela Machado: Claro! Uma apresentação é sempre parte de alguém que ainda estamos sendo. Traz sempre pegadas dos caminhos que já percorremos, mas sempre corre o risco de estreitar nossos horizontes! Posso acrescentar que também sou uma mulher curiosa, alegre e fértil. Filha de um casamento ousado que me impulsionou a aceitar com generosidade a vida.


AW: Eu adoro esta história familiar. Ela por si só já daria uma entrevista! Conta um pouquinho da sua trajetória para gente.


Gabriela Machado: Desde pequena o mundo das artes me foi apresentado, vivenciei de tudo um pouco, da experiência com as Folias de Reis na zona rural até as idas aos teatro, como também o apreciar dos livros e das músicas. Fui criada por pai e mãe professores, empenhados em apresentar o mundo com amor para nós, seus filhos! Nasci em Juiz de Fora por caminhos desviados pelo amor de uma pedagoga por um padre, que aqui decidiram viver.



AW: Do amor do padre e da professora nasceu uma família linda. E como o teatro entrou na sua vida? Gabriela Machado: Iniciei minha experiência com teatro aos 9 anos aqui em Juiz de Fora. A gente não sabe exatamente qual o caminho nos levou na próxima bifurcação, mas com certeza fui cursar Licenciatura em Artes Cênicas pela escolha de não ser somente mais a filha do pai e da mãe (nesta outra Juiz de Fora corporativista) Além do desejo de me dedicar a arte como ofício, tinha em mim sede de mundo, desejo de outros. Queria aprender a olhar além das montanhas !

Gosto de fábulas. Contar caso, escutar pessoas mais velhas. Recordar acontecimentos. Talvez possa ser este o primeiro universo que me empurrou para o teatro. Mas quando iniciei minha faculdade, em Florianópolis, conheci um universo tão vasto de corporeidades, temporalidades e dramaturgias, que percebi que estava iniciando uma jornada para o resto da vida!


AW: Você diria que o teatro é a sua grande paixão?

Gabriela Machado: A vida é minha grande paixão. Tenho um tesão por este pulsar, pelas gentes, pelas culturas. O teatro talvez seja um modo de vida que mais me encanta para exercitar esta paixão pela vida!

AW: Como o bordado entrou na sua vida e como você une esta prática artesanal com o fazer artístico?

Gabriela Machado: Sempre gostei de fazer artes manuais. Tenho paciência e gosto desta sensação de tempo suspenso da utilidade que o artesanal nos devolve. Mas com a maternidade, primeiros anos com parceria de infâncias, me vi mais em casa, com menos tempo coletivo (e teatro é uma arte essencialmente coletiva!). Contraditoriamente busquei tempo em movimento sem sair do lugar. E me encontrei dançando com a agulha e as linhas, perfurando tecidos com meus pensamentos, sem a preocupação de chegar a algum lugar. Mas talvez no desejo de criar mundos. Outros mundos de mim.



"O bordado é a capacidade que temos de dedicar tempo e cuidado ao mundo para construir outros mundos possíveis. Bordado pode ser um modo de estar no mundo hoje."

Imagem da entrevistada Gabriela Machado em close do rosto e suas mãos bordando

Então posso dizer que foi meio por acaso, mas também foi por não poder conter meu desejo de mover mundos, como o teatro tão obviamente nos possibilita.

E logo 5 anos depois veio para Juiz de Fora uma oficina de bordado livre com a Marilu e a Savia, duas irmãs do Projeto Matizes Dumont. Lá fui eu e não parei mais.


AW: É muito bonita esta sua colocação de que o bordado nos movimenta em um lugar parado. É como o ato de escrever. Mas o escrever com linhas. Que tipo de bordado você prefere fazer?


Gabriela Machado: Todos! Bordo até papel. Gosto desta capacidade de mover outros mundos. Mas também gosto da oportunidade de estar exercitando o olhar. Bordar é também não bordar e olhar o mundo, para aprender cores e movimentos nunca antes imagináveis.


Meus bordados ainda estão ganhando um estilo meu. Então posso dizer que por hora gosto de bordar isso que ainda não sei que sei criar, que é a imagem.

Às vezes inicio a partir de uma poesia (pois amo literatura!), às vezes início para tentar bordar numa cor só… mas o mais curioso é que raramente começo pela imagem. Esta vai se fazendo pelo movimento de querer bordar!


 Imagem da entrevistada Gabriela Machado ensinando bordado para a filha Mariah, na foto com 10 anos
Gabriela com a filha Mariah. Arte Geracional

AW: O bordado livre tem atraído as gerações mais jovens, com uma roupagem mais moderna e conceitual. Você acredita que esta modalidade colabora para que cada dia mais pessoas se apaixonem e busquem aprender a técnica?


Gabriela Machado: Sim. Aprender ou relembrar. Acho que o movimento é próprio de uma contemporaneidade que acha que não temos mais nada para aprender ou inventar. Então voltamos ao antes.

Mas também pode ser um movimento do contemporâneo que se vê tão preso às coisas prontas que dá vontade de fazê-las com as próprias mãos, como que numa busca pela humanidade humana que há em nós como potência criadora de culturas.

Também pode ser por outros tantos motivos... Acredito que o principal é o desejo de colocar estas artes tão enclausuradas pelo mundo patriarcal em outras dimensões, como a política, o empoderamento e a subversão.


AW: O bordado tem sido muito usado na decoração de casas e ambientes e sempre agrada. Você diria que o bordado é hype? Por quê?


Gabriela Machado: O bordado além de um arte milenar, presente em todas as culturas, com diferentes modos de produção e intenção, esteve também muito ligado à decoração. E acho isso bom de ser lembrado. Pois decorar pode ser entendido como dedicar tempo e cuidado ao dia a dia, na intimidade e no social.


Curiosamente eu sou uma pessoa descolada, mas sempre fora de moda... kkkk E além dessas duas características hype em mim, eu penso que o bordado pode estar na 'crista da onda' mais pelo desejo de, junto à tanta tecnologia virtual, retomarmos a tecnologias manuais, do que como uma 'moda'.


Veja bem, eu encontrei o bordado desde pequenina, com tias maternas e paternas. Porém para hoje prefiro dizer que o bordado é a capacidade que temos de dedicar tempo e cuidado ao mundo para construir outros mundos possíveis. Bordado pode ser um modo de estar no mundo hoje.



AW: Além de criar peças de arte, você também ensina bordado ou compartilha suas habilidades com outras pessoas?


Gabriela Machado: Sim. Quando fiz a oficina em 2012, Sávia disse ao final: agora vocês precisam ensinar para pelo menos mais 5 pessoas. E fui. Ensinei para 5. E logo apareceram mais 5 querendo aprender. E quando olho hoje 11 anos depois já foram muitos grupos de 5 com os quais compartilhei esta gostosura que é bordar!


AW: Eu ainda vou somar esta conta. Só precisamos acertar nossas agendas! Recentemente eu escrevi em uma postagem da Art Wall no instagram que todo processo artístico é a linguagem da alma. Qual a mensagem que você quer transmitir com a sua linguagem?


Gabriela Machado: Minha linguagem é um desejo de devolver alegria para a vida, que é algo que não se experimenta só. Então também posso dizer que meu processo artístico é o desejo do encontro, a linguagem que nasce entre gentes e inunda-se de vidas.



AW: Estamos aqui em um blog de uma galeria de arte em fotografia. Esta é uma linguagem que também conversa com você?


Gabriela Machado: Claro! Sou do tempo daquela fotografia que se via com um olho só… lembra? Que descobrimos a imagem ali dentro daquele escuridão, buscando lá fora a luz.

Posso dizer que a fotografia sempre é para mim um universo de onde uma história pode começar. E, com ela, sempre vou para outros lugares.


AW: Bordado e fotografia, como você vê as possibilidades da junção dessas duas formas artísticas?


Gabriela Machado: A primeira vez que experimentei isto foi através das obras da artista Rosana Paulino.

Como eu disse, o bordado para mim não veio inicialmente pela possibilidade de criação de imagens. E curiosamente esta artista utiliza do bordado em fotografias para apagamento, para religamento… enfim para intervir na imagem. Para dançar sobre histórias congeladas e reescrevê-las. Olha isso é a minha interpretação das obras que vi de Paulino.


Bordar uma fotografia é sempre a possibilidade de ressignificar a imagem fotografada e quem sabe, construir outros modos de olhar e interpretá-la.

Então, para mim, bordar uma fotografia é sempre a possibilidade de ressignificar a imagem fotografada e quem sabe, construir outros modos de olhar e interpretá-la. Além de gostar do gosto que o bordado traz para a fotografia quando cria texturas, rastros quase como um convite para mover aquele olhar que congelou a imagem numa fotografia.


AW: Então se eu te convidar para um trabalho assim, você topa o desafio?


Gabriela Machado: Isso não é uma proposta. Isto é uma provocação! Claro que topo!


AW:Pronto! nos aguardem pessoal.


156 visualizações2 comentários

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2 Comments


Guest
Sep 21, 2023

Que entrevista emocionante!!! Gabriela é um ser de luz, paz, sabedoria e de uma magia inenarrável!!! Parabéns!!!

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Guest
Sep 17, 2023

Ah que entrevista linda! Gabriela é força e doçura! bordar com ela é uma sensação tão gostosa! Aprendi com ela o bordado livre e ela segue sendo minha inspiração! ❤️

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